Dificilmente passamos um dia inteiro sem ouvir sobre a pressão
insustentável que estamos colocando nos recursos naturais. E, enquanto
nos vêm à mente imagens de coisas como petróleo, água doce e carvão, a
verdade é que muitos outros produtos também estão se esvaindo
rapidamente.
Alguns desses produtos podem não ser tão cruciais quanto, digamos, a
água potável, mas ainda assim eles são parte de nosso cotidiano. Então,
com o Dia de Ação de Graças chegando, vamos parar um pouco para apreciar
essas sete maravilhas do mundo moderno. É melhor você aproveitá-las
enquanto pode.
Chocolate

Chocolate é uma delícia, né? Ele tem um lado bem triste, entretanto: a
maior parte do fornecimento de cacau do mundo vem do Oeste da África,
onde muitos países ainda têm que combater coisas como trabalho infantil,
muitas vezes escravo, e tráfico de crianças; em outras palavras,
este é o tipo de trabalho que produz o chocolate que você coloca na sua boca. Mesmo com o trabalho escravo, entretanto, plantar cacau
não é financeiramente lucrativo para o fazendeiro africano médio.
Como estas crianças poderiam falar para você, cultivar cacau é um
trabalho muito duro. Leva tempo (cada nova safra leva cinco anos para
crescer), tem que ser feito manualmente e, ainda pior, tem que ser feito
manualmente num calor torturante. E o pagamento final? A fortuna de 80
centavos de dólar por dia — que ficam com o fazendeiro, na verdade.
Nesse ritmo, em cerca de vinte anos, o chocolate poderá se tornar um
luxo com preços comparáveis ao do caviar. E isso
com a
continuação do trabalho infantil. Com leis de comércio justo avançando
na indústria, ainda que lentamente, e leis sobre o trabalho infantil
sendo (justa e corretamente) aprovadas, o preço do trabalho irá subir,
fazendo os produtores terem ainda mais prejuízo. O xis da questão aqui é
que o chocolate vai ficar caro demais para ser produzido em massa.
Além disso, não dá para transferir a produção da matéria-prima para
outras partes do mundo. O cacau só cresce em latitudes a menos de 10
graus da linha do equador — uma área em que estão alguns dos países mais
instáveis do planeta. Em outras palavras, é bom aproveitar os seus ovos
de páscoa no ano que vem.
Sardinhas

Esta aqui pode não incomodar tanto assim muitos de vocês, mas para os
amantes dos peixes oleosos enlatados, o fim do mundo está vindo aí. No
mês passado, a frota do Oeste do Canadá de navios caçadores de sardinha
voltou ao continente com um total de… zero, nadica de nada. Não são
apenas US$32 milhões de sardinhas em potencial que deixaram de ser
pescados, mas a perda é um indicativo de um futuro bem perturbador: nós
podemos estar a algumas décadas de não haver mais sardinhas nas águas.
As populações de sardinhas tendem a oscilar com a temperatura da
água, e estes peixinhos estão se reproduzindo menos desde o resfriamento
das águas do Pacífico, ocorrido na década de 1990. A pesca pesada,
claro, continuou no seu ritmo, sem atentar a isso. Além disso, qualquer
ovo de sardinha pego hoje em dia vem de peixes nascidos a mais de uma
década — uma geração de sardinhas que está quase morrendo. Apesar de
tudo isso, o Canadá continua aumentando suas cotas de pesca, e os EUA,
apesar das limitações que vêm sendo impostas, ainda não diminuíram a
quantidade o suficiente para se adequar ao estoque cada vez menor.
Então, o que isso pode significar para as pessoas que adoram esses
peixinhos enlatados? Pode levar décadas até as águas se aquecerem o
suficiente para trazer de volta nossos amigos do mar.
Tequila

Em 2007, a produção mexicana do agave-azul (a planta a partir da qual
a tequila é feita) já não estava indo tão bem. Vinte por cento da safra
foi avariada por doenças, um sinal de que,
como notou o Chicago Tribune,
os fazendeiros estavam abandonando a colheita pelo mesmo motivo que as
fazendas de cacau estão desaparecendo: o custo é muito alto. Cultivar
milho é muito mais lucrativo que cultivar agave-azul. Então, o que um
produtor faz quando ele quer substituir sua plantação por alguma que dê
mais dinheiro? Queima tudo. Sim, ao invés de colher o que já tinham, os
fazendeiros decidiram queimar campos e campos de preciosa tequila em
potencial.
Mas você não precisa começar a afogar suas mágoas agora; os grandes
produtores estão cuidadosamente estocando tequila para a escassez que
está por vir. Porque, quando ela finalmente vier, o líquido dourado vai
virar ouro líquido — o que não é bom para os consumidores, com certeza.
Mas, à medida que fazendeiros independentes virem o preço do agave-azul
crescendo, eles começarão a replantar estes mesmos campos em que eles
atearam fogo anteriormente.
Claro, depois disso acontecer, ainda leva 12 anos para um agave-azul
estar pronto para produzir a frutose necessária para fazer tequila. É
melhor você começar o seu estoque. E se você decidir
mesmo afogar as mágoas, prefira vodca.
Hélio

Já inalou hélio para ficar com a voz fininha e dar umas risadas?
Valeu, camarada, ajudou bastante. Porque, hoje em dia, precisamos
conservar o quanto pudermos de hélio. Você pode não perceber, mas o
hélio é um produto altamente necessário no mundo moderno. Tudo, de imãs
de máquinas de ressonância magnética a fibras óticas e telas de LCD
precisam do elemento (que tem o ponto de ebulição mais baixo entre os
materiais existentes na Terra) para funcionar. Sem ele, muito do que nós
nos acostumamos a depender vai enfrentar dificuldades.
Mas isso não faz o menor sentido, você pode dizer. Como o estoque de
hélio pode estar diminuindo tanto assim, ainda dá para comprar um monte
de balões de hélio por aí com qualquer trocado? Bem, você está certo,
isso não faz o menor sentido — mas não pelos motivos que você pode estar
pensando. Mesmo quando estamos de fato ficando sem esse gás nobre, os
Estados Unidos não pararam de vendê-lo muito barato. E, de acordo com o
cientista Robert Richardson, da Universidade de Cornell, essa é uma
decisão deliberada:
O governo dos EUA construiu uma reserva nacional de hélio
em 1925. Ainda hoje, um bilhão de metros cúbicos do gás está estocado
num depósito perto de Amarillo, Texas. Em 1996, o Congresso Americano
aprovou um decreto determinando que esta reserva estratégica, que
representa metade dos estoques de hélio da Terra, deve ser completamente
vendida até 2015. Consequentemente, o hélio é tão barato e não é
encarado como um recurso preciso.
E, quando ficarmos sem esse estoque, nossa outra opção é recuperá-lo do ar — o que vai custar
dez mil vezes o que custa hoje. Então, tente não se lembrar dos
milhares de dólares balões que você comprou e deixou escapar por aí.
Vinho

Somos uma espécie composta por beberrões de vinho. A sede insaciável
da humanidade nos colocou numa situação difícil — algo na casa de 300
milhões de garrafas. Claro, há um milhão de produtores espalhados pelo
mundo fazendo 2,8 bilhões de garrafas por ano, mas isso ainda não é
suficiente para saciar a sempre crescente demanda por mais vinho.
Na verdade, apesar do crescimento em 1% no consumo global de vinho, a
produção caiu mais de 5% no ano passado — a maior queda desde os anos
60. O que é pior é que a produção da bebida na Europa no ano passado
despencou mais de 10% — e a região produz cerca de metade do
fornecimento anual. Infelizmente, a maior parte do crescimento da
indústria está acontecendo graças aos produtores artesanais, que não vão
conseguir dar conta da alta da demanda.
Queijo de cabra

Em 2010, o Reino Unido passou por um grande surto de febre Q. Isso
fez com que mais de 50 mil cabras e ovelhas prenhas fossem descartadas
(isto é, removidas da procriação). Alguns criadores decidiram parar
completamente a reprodução. Isto já seria um grande problema, mas
certamente não ajuda o fato de a demanda continuar a aumentar, mesmo com
a oferta diminuindo.
O queijo de cabra é particularmente popular no fim de ano em lugares
como a Europa e, recentemente, um parte considerável do planeta parece
ter passado a gostar dessa iguaria: a China. Eles querem pagar, e querem
pagar muito. Isto está deixando os fornecedores do produto em uma
situação difícil. Como disse do
The Telegraph George Paul, diretor da fabricante de queijo Bradbury & Son:
Os varejistas irão pagar mais por produtos de cabra ou
correr o risco de ficar sem. Um ou outro vai ceder em breve — pode ser o
preço ou a disponibilidade.
Então, não se surpreenda se você começar a ver queijos de cabra com
preços bem salgados nos mercados por aí — fique feliz por ainda poder
encontrá-lo em algum lugar.
Bacon

Talvez a carne mais amada de todas, o bacon pode deixar muita gente
triste em breve. De acordo com a Associação Nacional do Porco –sim, o
nome da entidade inglesa é esse mesmo: National Pig Association (NPA)–,
uma escassez global de bacon (e outros produtos suínos, a propósito) “é
inevitável”. Mas não se culpe por ser guloso ou comilão: há vários
fatores contribuindo para o problema com os porquinhos.
A NPA atribui a escassez ao aumento do custo da ração, que pode ser
atribuído às fracas safras de soja e milho do ano passado. Mas isso não é
só no Reino Unido; esta mesma tendência está se repetindo por todo o
mundo. O Departamento de Agricultura dos EUA publicou
um relatório em agosto de 2012
que previu precisamente que os criadores de porco iriam reduzir sua
produção para minimizar perdas, que poderiam ser grandes, graças à seca
do Meio-Oeste Americano de 2012. Além disso, o
vírus da diarreia suína epidêmica (PED, de Porcine Epidemic Diarrhea) está matando porcos em 15 estados americanos. E, por enquanto, ainda não há vacina no país.
Claro, isso não quer dizer que o bacon vai desaparecer em breve, mas
os preços certamente vão refletir os estoques reduzidos. Então, se você
quer economizar, pode ir deixando de pedir um x-bacon na lanchonete.
[
CNN,
The Atlantic,
Cracked,
New Scientist,
New Scientist 2,
In Search of the Blue Agave,
PopSci,
Planet Ivy,
The Telegraph,
MSN Money,
Wired]
Via: Gizmodo